Olhava a noite, a brisa fria batia em seu rosto, mas ela estava encafifada com uma pergunta que alguém lhe fizera, alguém lhe pedira para falar da mulher Celeste, ela desconversou, arranjou uma desculpa e foi para casa.
Aquela pergunta a deixara com um ponto de interrogação e ali olhando a noite a sua mente tentou respondê-la.
No entanto não encontrava uma resposta precisa, falar o que da mulher Celeste, da mulher que era?
Não sabia o que falar?
Passou por sua mente a sua vida nos últimos anos, alguns realmente diziam que ela não vivia, que não tinha uma vida dela. Será que não?
Quando trabalhava era uma excelente funcionária, vestia a camisa da empresa, atendia os clientes com toda atenção, não procurava apenas o interesse da empresa, mas sim, procurava associar o bem estar dos clientes aos interesses da empresa, era boa nisso, nunca enganara ninguém.
Depois da aposentadoria, ficara em casa, mas da casa sempre cuidara, dos filhos, do marido, e depois que ele falecera, passou a dedicar-se à família.
Vieram os netos e ela ajudava no que podia, morava com a filha mais nova, ou a filha mais nova morava com ela e o seu filhinho.
Cuidava dele para ela trabalhar e estudar, ficava com ele quando ela saía a noite, era fácil ela já o deixava dormindo.
Isto ocupava todo seu tempo, mal tinha tempo para pequenos lazeres, a noite depois que o pequeno dormia, ela aproveitava para ler, para acessar a internet, às vezes conseguia fazer algum trabalho de crochê ou conectar-se com a sua fé. Já assumir compromissos fora do lar era difícil, os horários da filha eram incertos, até tentara frequentar sua fé, mas a filha não lembrava do dia combinado e raramente chegava no horário, então ela faltava e não era de seu feitio assumir compromisso e falhar, então desistira, teria que aguardar, aguardar o que não sabia.
Vida social não existia, devido a sua reclusão não tinha amigos, os que tinha eram distantes, sair de casa não mais gostava, antes saía com o marido, tudo fazia com ele, a seu lado sempre estava, mas depois de sua partida, realmente perdera o gosto, nunca fora de sair muito, mas com ele até uma ida ao mercado era um passeio.
E agora essa pergunta? Como é a mulher Celeste? Ora bolas, não é. Não existe só a mulher, aliás ela pouco tem voz, existe sim a mãe, a avó, a dona de casa, a irmã, a tia, a amiga, a mulher de fé, fé essa que nunca perdeu por pior que fossem os vendavais.
No passado, antes de conhecer o marido, já tinha a sua fé e a praticava, mas também, gostava de sair, de ouvir um samba, de estar com uma amiga para jogar conversa fora, mas sempre colocando a mãe em primeiro lugar, pois já tinha dois filhos. E jamais os deixava quando estavam em casa, mas quando iam pra casa do pai, aproveitava para fazer as coisas que gostava.
Bem essa era ela, o que fora e o que é agora, se ver unicamente como mulher nunca acontecera. Não a pergunta estava errada, a mulher Celeste era a soma de todas as Celestes que nela havia.
Sorriu, era feliz assim, consigo trazia em seu interior muita paz, certeza de estar tentando fazer o melhor para os que amava e para aqueles que seu caminho cruzasse, esta era ela a Celeste, a soma de tudo, cada parte sua formando um único eu,
não sentia falta de nada, talvez de alguém que nesta Terra já não se encontrava.
Olhou a noite, deixou-se envolver pela sua energia, suspirou fundo sentindo que alguém com ela também suspirava, então sentiu-se completa.
Luconi
10-06-17